segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Leblon que se foi #03 - Farmácia Piauí

 Farmácia Piauí 

A Esquina da Boemia


A Farmácia Piauí não era apenas um lugar para comprar remédios; ela foi o coração pulsante da vida social e boêmia do Leblon por quase seis décadas. Falar da Piauí é falar da própria história do Leblon e da transformação do bairro.


1. A Fundação e o Pioneirismo (Anos 40)

Fundada em 1946 por João Baptista de Castro, um farmacêutico vindo justamente do estado do Piauí, a farmácia surgiu em um Leblon que ainda guardava ares residenciais e tranquilos.

O grande diferencial veio logo no início: foi a primeira farmácia 24 horas do bairro. Em uma época em que o comércio fechava cedo, a luz acesa na esquina da Avenida Ataulfo de Paiva com a Rua Rainha Guilhermina tornou-se um farol para quem precisava de auxílio de madrugada — ou para quem simplesmente não queria ir para casa.

2. O QG da Boemia e do "Baixo Leblon"

A partir dos anos 70 e 80, com a explosão do Baixo Leblon, a farmácia ganhou um status lendário. Ela ficava no caminho estratégico entre os bares (como o Pizzaria Guanabara e o Real Astória) e as casas dos artistas.


Ponto de Encontro: Como não existiam celulares, a Piauí era o "WhatsApp" da época. Se você estivesse procurando alguém na madrugada do Leblon, bastava passar na farmácia ou na banca ao lado.

O Escritório de Tom Jobim: O maestro era o cliente mais ilustre. Ele morava perto e era visto lá quase diariamente, muitas vezes de pijama e chinelos, comprando jornais ou apenas jogando conversa fora com os funcionários.


A "Farmácia-Clube": Figuras como Millôr Fernandes, Chico Buarque, Henfil e Cazuza eram frequentadores assíduos. Diz a lenda que muitas músicas foram cantaroladas pela primeira vez e muitas crônicas foram idealizadas ali, entre uma prateleira de aspirinas e o balcão de atendimento.

3. Muito Além dos Remédios

A Farmácia Piauí funcionava como um centro de convivência. João Baptista, o dono, era conhecido por sua generosidade. Ele frequentemente dava descontos, vendia fiado para os vizinhos em dificuldade e conhecia os nomes de quase todos os moradores do bairro. A farmácia tinha uma alma que as grandes redes modernas dificilmente conseguem replicar.


4. O Fim de uma Era (2004)

O fechamento da Farmácia Piauí, em setembro de 2004, foi um choque para o Rio. Vários fatores levaram ao seu fim:

Concorrência: A chegada das grandes redes de drogarias, com poder de compra agressivo e preços mais baixos.

Mudança no Perfil do Bairro: O Leblon tornou-se um dos metros quadrados mais caros do mundo, aumentando custos e mudando a dinâmica do comércio de rua.

A Morte do Fundador: Após o falecimento de João Baptista, a gestão familiar enfrentou dificuldades para manter o negócio competitivo diante da modernização do setor.

5. O Legado: A Banca Piauí

Embora a farmácia tenha fechado, o nome Piauí não saiu da esquina. A banca de jornais adjacente, que também era um ponto de referência, assumiu o "sobrenome" da farmácia para manter a tradição viva.

Hoje, a Banca Piauí funciona como um memorial informal. Mesmo que o espaço físico da farmácia agora seja ocupado por uma Droga Raia, os cariocas mais antigos ainda marcam encontros dizendo: "Te vejo lá na Piauí".

A história da farmácia é o lembrete de um Rio onde o balcão do farmacêutico era tão importante quanto a mesa do bar para a cultura da cidade

Nota do Editor (Luiz Aviz)

Eu morava na Avenida Visconde de Albuquerque, entre as ruas Codajás e Igarapava bem proximo da Farmacia Piaui, e meus pais tinham uma conta lá, era só passar e pegar o que precisava e eles anotavam num caderninho, e no final do mês, passar para pagar.


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